RÁDIO CARLOS PITTY

sexta-feira, 6 de junho de 2008

CRÔNICA - VIOLA, CAIPIRISMO E BRASIL

VIOLA, CAIPIRISMO E BRASIL
(Carlos Pitty) Direitos reservados

Chora viola!
A música caipira, com a “cara” do Brasil encerra em si sentimentos ao mesmo tempo tristes e alegres, buscando expressões do mais simples e ingênuo até a malicia e irreverência do homem do campo que com respeito busca suas origens e explode trazendo o dia-a-dia, sonhos e vivência de amores, encontros e desencontros na mais pura emoção da canção. Em momentos suas histórias cantadas nos fazem lembrar do teatro trágico grego ou ainda shakesperiano, onde desencontros amorosos, por exemplo, terminam em tragédia.
A viola tocada com emoção, muitas vezes sem técnica ou tecnologia, é o canto emocionado do homem da terra que dela tira seu sustento e sua força, sua nostalgia, inquietude e expressões que revelam a imensidão de sua alma.
É no ponteado que se refletem as batidas de seu coração e registram sua espontaneidade de alma pura e simples de homem, que usa seus sentimentos como bússola para orientar seus hábitos, costumes e colheitas.
Os versos cadenciados em oito silabas, rimando linhas pares, fizeram clássicos da música caipira e chegaram aqui nas primeiras caravelas, passando pela mestiçagem dos indígenas e africanos, ajudando a criar formas peculiares de cantos e danças como o cateretê e a catira, à toada e a melodia lânguida, juntou-se o pagode, ritmo mais recente criado pelo saudoso Tião Carreiro, e a moda de viola, fábula novelesca de uma literatura musicada que traz histórias de irmãos, amigos, amantes, crenças e descrenças e especialmente amores, desamores; venturas e desventuras de seres buscando serem felizes, valorizando cada objeto, animal, nossa cultura, nossa gente.
A moda caipira pode ser considerada branca nas formas, apesar de rica das rimas e também africana, indígena e européia, trazendo e misturando pensamentos, cultura e afetos de costumes e sentimentos do sertão.
Nos campos e cidades, com a nostalgia que traz os males e a dança que traz os pares, a música raiz, valoriza as origens de cada um de nós.
Explícito ou escondido nos recônditos das entrelinhas, fala de vazio, religiosidade, cultura regional, saudade, dores e amores, pulsando sabedoria nas mais simples expressões.
Na música caipira de raiz, quem tem voz é o caboclo nativo e seus inúmeros filhos que intuitivos, sonhadores, místicos, crentes, dão verdadeiras lições de vida e sapiência, mesmo que sem conhecer profundamente a leitura e a escrita. Por instinto lêem os sinais da natureza, interpretando a voz e a vontade de Deus.
Nas asas da tradição, o caipirismo canta querências e os saberes, poetizando a vida e as experiências vividas com simplicidade trazendo o linguajar característico regionalista.
Chora viola! E que teu pranto seja um grito de respeito às tradições, lembranças das conversas no alpendre, do café cheirando no fogão a lenha e do calor da emoção ao se contar e ouvir histórias quando havia tempo para o “ser” e não para o “ter”.

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