RÁDIO CARLOS PITTY

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

CONTO ESCRITO POR CARLOS PITTY

“SEU JÓ” E MOLLY – O REENCONTRO 
(Por: Carlos Pitty) Direitos reservados

Era tarde de uma segunda feira de junho. Inicio de semana mais um dia em uma cidade grande, porque não uma grande metrópole, cidade imensa onde em apenas um olhar não seria possível ver sua imensidão, turbulenta, barulhos, pessoas, fábricas, máquinas, com muitos carros, que transitavam por uma grande avenida.

Seu Jó, um senhor com seus 78 anos, de bengala, medindo pouco mais de 1,70, leve, cabelos brancos, voltava de ônibus para as casa em um bairro tranquilo, seus movimentos já eram comparados ao transito, lento, sem muita agilidade mesmo que em horários alternados.

Sempre sozinho, afinal não gostava de dependências, Seu Jó, como era conhecido no bairro, voltava de mais uma tarde de consulta com seu médico, seu coração lento lhe incomodava e era motivo de preocupação. No peito as batidas eram como ritmo do transito da grande cidade, por alguns momentos era de forma tranquila, mas por horas era abaixo do natural, quase parando.

Uma tristeza lhe tomava, desde que sua companheira, dona Cleide, a qual prometida na igreja seria para toda a vida, lhe tinha deixado neste mundo 5 anos atrás. Seu olhar sempre cabisbaixo, pareciam acompanhar seus dias, igual a transição dos veículos na avenida superlotada, lento, poluídos sem perspectivas de melhoras. Ao contrário da cidade que crescia, Seu Jó regredia sem expectativas, ora por fase e cansaço da idade, ora pela solidão, com a perda de sua companheira que por quase 50 anos lhe acompanhou.

          Na estação 54, o motorista fez sua parada, nem precisava apertar o alerta, pois Seu Jó era muito conhecido, popular, apesar de trocar sempre poucas palavras, era um senhor, simpático, que tinha de seu casamento um filho, José Junior, casado, mas que vivia basicamente para seu trabalho e viagens. Sua mulher Jurema, professora tinha apenas olhares para sua escola e alunos. Os netos de seu Jó, Márcio e Mirela, um casal, apesar lhe adorarem, estavam na fase universitária e no mundo da lua. Apenas nos fins de semana era possível um encontro em família.

Então Seu Jó, dividia seus dias de solidão pouco com a sua pequena televisão no quarto ou com o radinho de pilha na cabeceira da cama, onde ouvia noticias do governo, previsão do tempo e programas de entrevistas diversas que eram sua diversão e interesse. Seus amigos já tinham partido dessa vida, ficando sozinho, impossível para dividir ao menos umas rodadas de jogos de cartas. Alguma coisa lhe faltava, seus dias eram tormentos, sem expectativas, onde nem mesmo o aumento de sua aposentadoria lhe animavam.

Após descer os degraus do ônibus, lentamente, degrau por degrau, um jovem acelerado queria subir, mas por um momento a paciência tomou conta de seu olhar, e ofereceu ao Seu Jó as mãos para lhe auxiliarem a descer, e o velho mesmo que sempre independente, aceitou a boa ação do jovem para poder descer. Assim o jovem subiu e seguiu seu caminho, agitado em seu trajeto de novas perspectivas, sonhos e planos. E Seu Jó? Um velho senhor solitário em uma grande cidade, com centenas, milhares ou milhão de pessoas. Nada além disso, assim o sentia.

Era uma tarde chuvosa, tempo fechado, muitas pessoas, muitos olhares sem sorriso, sem sol. Assim como a face de seu Jó, sem ânimo. Ao pisar no chão firme, a segurança além da bengala, lhe deixava tranquilo. Ao olhar a sua frente uma visão triste lhe chama atenção. Parecia até que alguém lhe esperava. Seu Jó nota uma cachorra com olhar tristonho, tremia com o frio do começo de inverno, pelos brancos molhados, com os pingos da chuva que lhe escondiam a idade. Seu Jó deu um passo, dois passos... por um minuto algo lhe despertou. Sente que deveria olhar para trás, e assim o fez.

A pobre cachorra continuou seu olhar focado ao senhor de bengalas. Seu Jó que sempre foi de um coração frio para animais, nunca aceitou ter um bichinho de qualquer espécie como estimação, sentiu seu coração tomado. A cachorra parecia pedir abrigo, pedir um abraço, uma atenção, se não uma companhia. O velho, ficou parado com olhar na mesma direção do pobre animal. Ambos se olharam, parece que existia uma intimidade. Mas como? De onde? Ele nunca foi próximo a qualquer bichinho por mais inocente que fosse. Seu Jó sentiu-se valorizado, pareciam próximos. E o pobre animal mostrava por total sua carência de um lar. Talvez já tivesse criado seus filhotes e perdidos ao mundo. Talvez estivesse com fome, machucada, doente...

Passou-se alguns segundos, desviando seu olhar, dividindo com os tantos outdoors, prédios, luzes, cores... segue seu caminho, achando normal ter uma animal perdido por ali, como tantas pessoas, mendigos que vivem sem destino e um canto para se esquentar e viver tranquilo.

Lentamente, caminhou talvez 10 passos ou mais, com respirar lento e desconfiado como se tivesse alguém lhe seguindo, olha para trás e nota o pobre animal lhe observando com um triste olhar... deprimente, como se estivesse sido abandonado, o qual já teria acontecido a muito tempo.

O velho segue mais alguns passos, e uma vontade lhe toma. Parece sede de algo. Algo lhe intriga. E sente vontade de olhar novamente, já sem ser preocupar de estar sendo seguido, mas sim, curiosidade e preocupação com o pobre animal... e lá estava o bicho lhe olhando.

Seu Jó sem nenhuma intimidade para, olha, sem saber qual reação tomar contribui o olhar que já é recíproco, o velho e o animal. Fica como uma estátua querendo entender a situação, e o pobre bicho parece lhe conquistar com um olhar macío, solitário. Ambos, tiveram a certeza que acharam o que buscavam, o afeto, o carinho, a atenção.
Seu Jó, tenta se virar e seguir seu caminho, mas como imã algo lhe puxa, lhe atrai e seu coração que sempre foi meio frio...parece sentir necessidade de compartilhar afeto, e assim o faz.

Sem muita habilidade com animais, Seu Jó apenas olha o pobre animal, mas como chamar? Qual seu nome? O que fazia alí? Perdido? Alguém o deixou? Talvez sua extrema idade tenha sido motivo para se tornar um animal sem mais interesses... Desiste. O velho retoma seu destino, acha tudo normal... Apenas um animal perdido e pronto, e retoma seu lento caminhar pelas calçadas que acompanham a avenida. Ao andar por longos minutos e pouca distância, resolve lentamente olhar para seu passado, ou seja, atrás, e nota que o animal andou alguns passos, a o seguir.

Pronto, seu coração que batia a passos lentos, movia-se pela emoção e conquista e sentia a necessidade de chamar o pobre bicho. Nem precisou fazer esforço, Seu Jó já notou era uma cachorra, e lentamente o animal esforçadamente tentou dar passos, mas uma das patas parecia estar machucada. Seu Jó teve uma pequena lembrança de sua fiel companheira Cleide, que por uma queda, se machucou, ficou com defeito em uma das pernas e caminhava com dificuldades. Voltando ao mundo real, a cachorra lentamente se aproximou, Seu Jó, já nem tentou mais entender. Apenas seguiu seu coração lento e o destino rumo a sua casa.

Morava em uma rua tranquila a pouco menos de 1 mil metros do ponto do ônibus, uma casa modesta, com um cantinho nos fundos e um pequeno jardim onde era possível plantar algumas flores que faziam que Seu Jó se sentisse útil e praticasse alguma ação e tivesse movimento para seu corpo.

Seu Jó olhou pra atrás e lá estava Molly, o pobre velho em seus pensamentos já teria escolhido um nome, como se ela fosse escolhida como alguém intimo. E de fato Molly era. Impossível acreditar, mas o animal acompanhava os passos lentos, tal qual seu escolhido, ou como se fosse escolhida pelo Senhor que andava lentamente como seu coração.

Entrando em seu território, após alguns poucos quarteirões, Seu Jó repara que a já fiel parceira o lhe acompanhava como se tivesse um destino. Fechando o portão Molly já estava na parte de dentro das grades que protegiam a casa na grande cidade. Seu Jó abriu as portas da casa para Molly além de oferecer uma amizade, mas sim também um lar.

E Molly parecia aceitar sem receios e dentrou no recinto, mesmo que ali não tivesse um canto definido, porém se sentia localizada, familiar. O velho entrou e abandonando a bengala, sentou-se ao sofá e Molly já com pelos mais secos, acomodou-se aos pés do velho, que por um minuto se sentiu acariciado, acompanhado como nunca nos seus últimos anos, desde a perda de sua fiel companheira esposa.

Para Molly parecia ser uma missão, se sentia confortável, tendo um lar, um canto, um companheiro que a valorizasse para viver seus últimos dias, afinal já sentia fraca para seguir longe, o Seu Jó, apesar da independência, com a mente tranquila se tinha feito sua parte na construção da família, seu filho vivendo bem, seus netos na universidade... sentia falta de uma companhia. Meta cumprida, sabia que deveria seguir o fins dos seus dias, conforme o destino previa. Molly era uma cachorra bonita, bem cuidada, com pelos longos, talvez tenha sido abandonada por algum dono ou mesmo tenha fugida por mais tratos. Sua pata machucada com marcas ao longe tempo tenham lhe causado medo. Ou mesmo o destino lhe tinha programado algo.

Sentado ao sofá, já passavam das 18:30 horas. Ninguém na casa tinham chegado, o que deveria acontecer após as 22hs, seu filho em viagem de trabalho, a nora emendava o trabalho da escola secundária junto a universidade e o netos o trabalho com a faculdade deixam o dia solitário por mais tempo. O velho realmente se sentia abandonado por todos, e Molly alí, naquele momento estava sendo fiel, amiga, parceira, e mesmo que sem forças para lhe oferecer muito, o velho tinha a carência suprida.

Lentamente o velho sai do sofá, e liga o seu parceiro velhinho radinho de pilha. Molly desperta de um sono bom que teve aos pés do Seu Jó, como se tivesse alertada a realidade do mundo. Que nada, apenas um desvio de atenção.

Rádio ligado, Seu Jó tinha aos seus pés uma nova oportunidade de alegria, de felicidade, de se sentir acompanhado desde à perca de Dona Cleide, que partiu anos anteriores, por problemas de coração. Molly já deveria ter seus 15 anos de vida, realmente estava quase além dos anos que lhe permitiam viver. Parecia que estava com Seu Jó cumprindo alguma missão. O velho nem conseguia entender ou descrever o se que passava naquela tarde nublosa de começo de inverno.

A noite já ganhava sua escalada, se Jó se parecia encantado com o mundo e a proporções que o destino lhe proporcionava, enquanto Molly relaxava aos seus pés, o velho dorme, começa a sonhar em seu leve sono, de momentos vividos com sua fiel parceira, das viagens, dos passeios, enfim dos lugares vivenciados cheios de encantos.

Será que Cleide, a esposa fiel, parceira e esposa estava além do outro lado da vida mexendo os pauzinhos para que Seu Jó tivesse um descanso em paz em seu lado como promessa no altar da igreja anos e anos atrás?

          Por volta das 23 horas, todos em casa, filho, nora e netos sentiram falta de barulho, pela casa e fora dela um silêncio total.  Resolvem visitar o velho no seu canto e quando abrem a porta, encontram Seu Jó, dormindo eternamente com seu coração parado, sentado ao seu sofá, e com Molly uma cachorra desconhecida por eles, dormindo aos seus pés.

Enquanto pra eles, a cachorra era um animal perdido e estranho naquele local, Molly, era um animal que veio trazer ao velho Seu Jó, em seu último dia na terra, conforto e companhia para uma passagem de vida sem solidão ao reencontro para uma nova vida...